A Península Ibérica foi, desde há muitos séculos, uma região de grande abundância de lobos e onde, ainda no início deste século, este predador apresentava uma distribuição praticamente generalizada (Grande del Brío 1984).
No entanto, como é típico de qualquer região da Europa Ocidental, a Península Ibérica é também um território muito humanizado, onde a acção secular do homem se faz sentir em qualquer recanto da paisagem.
Nesta região, a milenar coexistência entre o homem e o lobo, deu origem a manifestações culturais únicas e muito peculiares, como sejam contos, lendas, superstições e formas práticas de defesa dos animais domésticos e combate ao lobo.
Os fojos, armadilhas para a captura do lobo, na maioria dos casos construídas em pedra, talvez sejam o símbolo máximo dessas manifestações culturais a nível ibérico. Isto porque além de serem estruturas cuja construção terá envolvido um enorme esforço e um grande número de pessoas, são também verdadeiros monumentos de elevado valor etnográfico, cultural e científico, e, o Norte da Península Ibérica, parece ser a nível mundial, a região onde existem em maior número e variedade. Além disso, a captura de um lobo num fojo, era motivo de festa, que no caso do fojo de paredes convergentes, poderia envolver os habitantes de várias aldeias da zona, o que, de outra forma, era muito difícil de acontecer.
Paisagem granítica de Fafião, região de rochas eruptivas plutónicas).
Esta área altimontana encontra-se inserida numa zona ecológica fitoclimática.
A humidade relativa nesta zona situa-se entre os 75 e 80%.
Não passa despercebido a passagem do nível florestal ao nível pastoril, no local circundante ao fojo.

Ao fundo: a entrada para o fojo de Fafião.
Típico fojo de paredes convergentes.
Por aqui seria o lobo encaminhado e atraído.
Na maior parte dos fojos de paredes convergentes, principalmente nos de maiores dimensões, existem portas que são simplesmente um corte na continuidade das paredes de forma a permitir a circulação do gado e pessoas. Estas portas podem ser portelos de pequenas dimensões, suficientes para a passagem dum ser humano, ou de grandes dimensões (até 14m de largura), que serviriam para a livre circulação do lobo sem ser em dias de batida, para a passagem de grandes rebanhos de caprinos e ovinos, ou mais recentemente para máquinas agrícolas. Nos dias de batida, estas portas eram previamente fechadas com pedras ou paus, ou guardadas por caçadores, para impedirem a fuga do lobo.
Porta do fojo.
Estes fojos estão muitas vezes dispostos em volta de um vale, de forma que no decorrer de uma batida formam autênticas muralhas à passagem do lobo. Neste caso, a localização e utilização dos fojos será uma adaptação aos movimentos de transumância do gado.
Os fojos localizados a maior altitude seriam utilizados no Verão, altura em que o gado, e consequentemente o lobo, se encontra nas pastagens de altitude, enquanto que os fojos localizados junto às aldeias, nos vales, seriam utilizados no Inverno, altura em que o gado pasta junto à aldeia, frequentando o lobo também mais essa área.
Dentro do fojo, antes da derradeira descida para o fosso.
Devido à altitude da localização do fojo de Fafião, torna-se inerente a ideia que este fojo seria utilizado na época de Verão.
O aproveitamento de escarpas e precipícios como forma de encaminhar o lobo na batida até ao fosso.
Normalmente, as paredes do fojo localizam-se em duas vertentes duma cumeada, de maneira que as extremidades convergentes dos muros e o fosso, e localizem em ladeiras de acentuado declive.
O estreitamento das paredes do fojo, indicando o fim da batida.
O Fosso, térmito da batida.
Ameaças e Conservação
O aparecimento de eficazes e fáceis meios de exterminar o lobo, nomeadamente o uso de estricnina a partir do início do séc. XIX e a proliferação das armas de fogo, a partir do início deste século, ditou, de uma maneira geral, o fim da utilização dos fojos. A partir daí, o esquecimento a que foram votados e a acção dos agentes climatéricos, da vegetação e da actividade humana, fez com que se resumissem ao estado degradado em que actualmente se encontram
.
De referir que os fossos dos fojos de paredes convergentes mantêm-se, por vezes, em bom estado de conservação, excepto em zonas muito frequentadas por gado e pessoas. As paredes devido à extensão que ocupam, estão mais sujeitas à acção de várias ameaças, estando por isso mais danificadas
Pensamos ser de grande importância a realização de sessões de divulgação do valor científico, cultural e até económico destas estruturas, junto das populações rurais, especialmente das gerações mais novas.
Com efeito, os jovens desconhecem muitas vezes a própria existência e localização dos fojos nas proximidades das suas aldeias.
A divulgação turística destas estruturas poderá ser de extrema importância,não só por alertar as entidades políticas regionais e nacionais, para a sua existência, e para a importância da sua conservação, como também para os habitantes locais, e como forma de rendimento económico.
Pormenor da parede do fojo.
Lobo-Ibérico
Fonte: http://carnivora.fc.ul.pt
Bibliografia: Os fojos dos lobos na Península Ibérica, sua inventariação, caracterização e conservação; F. ALVARES1, P. ALONSO2, P. SIERRA3 E F. PETRUCCI-FONSECA1